Bom mesmo é prever o passado - Carlos Brickmann

Publicado por: Redação
29/06/2022 05:43 PM
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Cortesia Editorial Pixabay
Cortesia Editorial Pixabay

Por Carlos Brickmann

 

Carlos Portinho é chamado de Vossa Excelência pelos seus pares e ocupa um alto posto: líder do Governo Bolsonaro no Senado. Portinho deu parabéns aos Governos de São Paulo e de Goiás por terem reduzido o ICMS sobre combustíveis tão logo a lei federal foi aprovada. Portinho assegurou que os dois Estados não perderão arrecadação, “pois o cidadão vai gastar mais no supermercado, no gás e em outros bens”. Portinho não compra gás nem vai ao supermercado, claro – Suas Excelências não têm essas preocupações de gente menos privilegiada. Por isso não sabe que o cidadão já está gastando bem mais no supermercado, mesmo tendo abolido produtos de luxo como carne de segunda ou frango. E não é comprando mais gás que ele dará mais arrecadação aos Estados: do jeito que a coisa vai, comprar gás para quê?

 

Paulo Guedes também é chamado de Vossa Excelência e ocupa um alto imposto: é o ministro da Economia do Governo Bolsonaro, e o presidente o chama carinhosamente de “Posto Ipiranga”. Guedes garantiu que o país vai crescer perto de 2% em 2022 e de 3 a 4% nos anos seguintes. Que coisa feia! Depois de passar quase quatro anos fazendo tudo para permanecer no cargo, inclusive demitir pessoas em quem confiava para agradar o presidente, agora muda de posição? Não se sabe qual é o candidato que pretende apoiar, mas com certeza, já que faz essas previsões, Bolsonaro é que não é. Ele deveria dizer quem é seu candidato – ou melhor, não. Quem confia em sua indicação?

 

Verificando

Em São Paulo, a alíquota do ICMS cai de 25 para 18%. A previsão é de que o litro fique R$ 0,48 mais barato na bomba. Em Goiás, a alíquota cai de 30 para 17%. A previsão é de que o preço por litro caia R$ 0,85 no posto. A sugestão deste colunista: vamos conferir e ver se o preço cai mesmo?

 

É crime mas não é

O Ministério da Saúde editou um guia afirmando que todo aborto é crime. O secretário de Atenção Primária do Ministério, Raphael Câmara, defendeu o guia: a seu ver, todo aborto é crime e, portanto, não há no Brasil a figura da interrupção legal da gravidez. O que há, explica, são abortos “previstos em lei”. Traduzindo, não há aborto legal, mas aborto previsto em lei. Vamos convir que Sua Excelência é tão bom em Direito que pessoas comuns nem conseguem entender a sutileza de seu profundo raciocínio jurídico. Seria um bom nome para o Supremo. Pelo menos sairia do Ministério da Saúde.

 

Lula, o que é mas não é

Está uma delícia acompanhar o noticiário sobre o principal candidato de oposição: primeiro o partido edita um programa prometendo revogar as reformas e o pessoal do PT fala em reestatizar empresas desestatizadas. Mas há um problema: as principais reformas foram feitas no Governo Michel Temer. Temer é do MDB, partido de que Lula precisará caso seja eleito. Aí entra em ação seu candidato a vice, o Chuchu Rosé: em conversa com empresários, diz que seu boné do MST serve só para proteger do frio o alto da cabeça, e que revogar as reformas, na verdade, quer dizer amenizá-las, e que ninguém, exceto os radicais, defende reestatizações. O papel de Alckmin é lembrar que ele está longe de ser um radical, exceto nos momentos em que alguém tenta afastá-lo do poder. E aí reaparece o Lulinha Paz e Amor, dizendo-se apaixonado, recém-casado, pensando com o coração e tendo como alvo melhorar a vida dos companheiros pobres. Lula fala a verdade: no período petista, raro foi o companheiro que não melhorou muito de vida.

 

Terceira via. Ou quarta. Ou...

Simone Tebet, oficialmente a candidata da Terceira Via, tem boa carreira política. Mas até agora não mostrou o mais importante: voto. Está longe de Ciro Gomes, por exemplo. Seu sonho de ser a Número 1 só se realiza, hoje, na porcentagem que apresenta nas pesquisas. É difícil o trabalho de Simone: boa parte do MDB, o que inclui o senador Renan Calheiros, está fechada com Lula. O PSDB ainda não moveu um cílio para ajudá-la (nem parece disposto a gastar com ela parte de sua verba de campanha). Um antigo termo político serve para definir sua candidatura: está sendo “cristianizada”.

 

Velhos tempos

Em 1950, o maior partido do país, o PSD, lançou Cristiano Machado, com apoio do presidente da República, o marechal Dutra. O PTB lançou Getúlio Vargas, que tinha governado o país, como presidente ou ditador, de 1930 a 1945. O PSD fechou com Getúlio, mantendo Cristiano como candidato. O marechal Dutra, que havia derrubado o ditador Getúlio cinco anos antes, deu apoio verbal a Cristiano e apoio real a Getúlio. Do nome de Cristiano Machado, que o próprio partido liquidou, surgiu a palavra “cristianizado”.

 

E Doria?

João Doria venceu as prévias no PSDB mas estava sendo cristianizado. Foi forçado a desistir. A propósito, alguém tem visto o ex-candidato da Terceira Via fazendo campanha por Simone ou Ciro, contra Lula ou Bolsonaro?

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